O mal dos números é a capacidade que eles têm de desmentir posições prévias, deixando-nos abandonados por nossas próprias convicções.

Os números são, para as ideias sociais, o que disse Monteiro Lobato, referenciando Nietzsche. Certa vez, manuseando numa livraria, com ânimo de comprador, um livro do filósofo, ouviu de um padre que o espreitava a seguinte observação: “Nietzsche meu filho, tão cáustico”. Ao que o afiado Lobato redarguiu “como sabão, padre!”.

Números, portanto, confirmam ou desacreditam teses, sendo sábio conformar-se com eles, mesmo que desmintam nossos conceitos prévios, os quais, uma vez submetidos e reprovados pelo crivo estatístico, de conceitos prévios transmutam-se em puros pré-conceitos.

Digo isto a propósito de dois dados estatísticos sobre a violência:

O primeiro: a Justiça é leniente para com os criminosos. A estatística das prisões no País demonstra que elas vêm aumentando numa velocidade bem maior que o crescimento da população, a ponto de as leis penais ficarem mais severas. Aí mesmo é que faltará cadeia para os condenados.

O segundo: a polícia ficou menos rigorosa, diante da política de proteção aos direitos fundamentais, hoje defendida por inúmeras autoridades dos três Poderes constituídos da Nação. Estatística nacional, provida por entidade absolutamente idônea, demonstra o contrário: no Brasil, a Polícia mata mais e muito. Incrivelmente, onde ela mais mata, mais violência existe (Rio e São Paulo).

Isto tudo para não falar de outro mito, muito caro para a minha geração, de que a violência social era fruto da desigualdade, bastando diminuir esta, para diminuir aquela.

Pois bem: a América Latina, superando as décadas neoliberais, tem passado por períodos de evidente diminuição da desigualdade e, malditos fatos que desmentem “sólidas” teorias, a violência vem aumentando.

O assunto parece desafiar os teóricos e os práticos, pois cuidar dele é tarefa precípua de qualquer governo que se entenda como tal. Talvez, um palpite dentro deste pitaco (que nada mais que isso dá para arriscar em tão traiçoeiro tema), haja mais combate à violência que visibilidade deste combate. Ou seja, que a percepção de proteção existente, tanto para tranquilizar o cidadão amedrontado, quanto para preocupar o criminoso que entende estar transitando em zona de “moleza”.

Mas isto nada mais é que uma tese, pois, como dizia o já saudoso Manoel de Barros, no assunto violência social, descobri que “todos os caminhos levam à ignorância”.

Por Marco Tulio de Rose/Advogado e Mestre em Direito