O Escritório lamenta o falecimento do Arquiteto Clóvis Ilgenfritz da Silva, um de seus mais antigos clientes. Marco Túlio de Rose conta algumas passagens desta relação que durou quase quatro décadas.

Conheci Clóvis quando eu era repórter da extinta Folha da Tarde. Editava três páginas de entrevista a cada sábado e a orientação editorial era procurar novos valores culturais da cidade e do Estado, além de alguns mais tradicionais, para que não houvesse reação do público leitor, que era conservador.

Nesta qualidade, entrevistei Clóvis (além de Cláudio Levitan, Oliveira Silveira, José Paulo Bisol, Moacyr Scliar e Dyonelio Machado, entre outros), sobre as modificações urbanísticas no conceito de propriedade. Era professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal e líder classista. Sua entrevista deu um panorama do que hoje é normal, quanto às limitações da propriedade imobiliária, nos centros urbanos, em termos legislativos, mas que na época era praticamente revolucionário.

Como dirigente do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito, levei-o para uma mesa redonda, junto com Udo Mohr, para uma mesa de debates com os professores de Direito Civil da Faculdade, que ao ouvi-lo diziam estupefatos, ‘então terminou a propriedade privada’, num evidente exagero.

Anos depois, jovem advogado, confiou-me a assessoria jurídica do Sindicato dos Arquitetos do Estado, por Clóvis presidida. Trabalhei oito anos nesta assessoria e fizemos campanhas jurídicas memoráveis, em prol do salário mínimo profissional, ajuizando ações para mais de 200 arquitetos.

Sempre acompanhei sua vida política, muitas vezes não concordava com suas posições partidárias, mas jamais deixei de admirar seu grande espírito público e sua visão de mundo de que os bens culturais e as políticas de Estado devem servir ao conjunto da população, não a poucos.

Alguns anos depois, em seu nome, ingressei com ação de danos morais contra o Banco de Fomento oficial alemão, que procurou manchar sua reputação, atribuindo-lhe, como dirigente da CGTEE, prática ilegal por ele não realizada. Fomos bem sucedidos e o Kreditanstalt für Wiederaufbau foi obrigado a indenizar-lhe o evidente prejuízo moral.

Fui seu conselheiro jurídico em vários momentos e ele já era mais um amigo que um cliente, pois era querido de todos os integrantes do escritório que com ele conviviam, ainda que esporadicamente. Sua perda é lamentável e a tristeza apenas não é dominante por ver que a sociedade gaúcha reconheceu isto, quando de seu passamento. Dele me fica a generosa lição que arquitetura e urbanismo não são conhecimentos grandiosos para prédios de luxos e megacidades, mas podem e devem servir à população, como um bem comum de todos.”

Clóvis Ilgenfritz da Silva faleceu no dia 23/11/2019, aos 80 anos.