Uma advogada cometendo o crime de tergiversação, uma policial dividindo seu tempo entre o exercício da função pública e a administração dos resultados do seu crime de peculato, um delegado que pratica com habitualidade o delito de prevaricação e dois jovens que ganham a vida furtando, unidos a um quadrilheiro para castigar um simpático, mas inescrupuloso misógino, que tira proveito do registro clandestino de suas façanhas amorosas.

E acima de tudo isso, a imensa simpatia que se tem pela trajetória dessas personagens. Essas duas características, de aparente contradição, fazem do filme (Now, Prime) “Vai Dar Nada” um trabalho cinematográfico que entrega bem mais que sua simples aparência.

Aparência muito agradável, diga-se de passagem. Um roteiro de falas divertidamente inteligentes, uma montagem fora do comum, elenco inspiradíssimo e uma trilha sonora que acompanha fielmente, com brilho, tudo o que se passa.

Mais além de tudo isso, e isso tudo não é pouco, um retrato daquela realidade suburbana brasileira, a vida das “comunidades”, que tem entrado no discurso brasileiro sob o estigma da marginalidade, e que no filme mostra sua face jovial, humana e invejável na sua ânsia de alegria e amor. 

“Vai Dar Nada” certamente vai dar o que falar nas disciplinas de Sociologia Jurídica, sobre a diferença entre a vigência da norma jurídica e a eficácia dessa norma.

Para os que não são do ramo, gratificará com o mesmo prazer que sempre se teve com os filmes de Zavattinni, de Sica e Monicelli, nos inspirados momentos do neo-realismo, mostrando como é (e como somos) gente como a gente.

Marco Tulio De Rose/Advogado e Mestre em Direito