Nos gênesis a morte é um fato transitório e necessário; a vida é a lei perpétua da transformação da eterna matéria     

  – Luiz Gama-

Por Marco Túlio de Rose

Corre o ano de 1960. Já tinha sete anos e lera dois livros, o “Pinóquio” de Collodi e as “Fábulas” de Monteiro Lobato. Estou começando outro, que é grande, a “História do Mundo Para Crianças”, mas meu pai, quem sabe achando que este era demais para minha idade (muita pornografia), passa-me o “Cazuza”, de Viriato Corrêa.

         Mergulho no mundo mágico do menino maranhense que vai do sertão para a bela São Luís, sem reparar que era uma obra que já contava com 22 aos de existência e 15 edições (o livro tenho até hoje). E no meio de todas aquelas maravilhosas histórias que me deparo com uma que me impressiona de modo inesquecível. A vida do afrodescendente Luiz Gama.

        Filho de mãe africana com pai branco e fidalgo, nascido livre, foi tornado escravo por obra e (des) graça de seu pai, jogador inveterado, que para pagar dívida do vício o vende para um “atravessador” da carne negra. Contava incompletos dez anos (o filme “12 anos de Escravidão” também aconteceu no Brasil, de modo até mais dramático, só não temos quem pelas coisas daqui se interesse)!

         Trazido de Salvador, onde nascera, para São Paulo, era tão pequeno que o comerciante que lhe adquirira não encontrou comprador e acabou virando “pau para toda obra” na casa daquele que pretendia revendê-lo. Dali, aos 17 anos, alfabetizou-se, e, em pouco tempo, juntou as provas de seu nascimento livre com as quais alcançou judicialmente sua alforria e o “status” de homem livre.

         De criado tornou-se soldado; de soldado, escrivão de polícia; de escrivão, solicitador (nome do advogado não graduado) e, como advogado, além de poeta, defensor ferrenho dos escravos. Assim encerrava o “Cazuza” a incrível história do filho feito escravo pelo pai.

         Cinquenta anos se passa e muito de vez em quando o nome de Luiz Gama se atravessa, como vaga referência histórica, nas minhas leituras, a ponto que quase mais nada, neste meio século, fiquei sabendo dele, que não fosse o que Viriato, em linguagem para crianças, lá atrás me contara. Estou caminhando com minha mulher no  Arco dos Teles, esse pedaço de Rio colonial, e entro numa pequena livraria, voltada a assuntos negros, onde compro uma camiseta com o retrato desenhado de Mestre Pixinguinha, quando vejo na vitrine um livro com o título “Com a Palavra Luiz Gama, Poemas, Artigos, Cartas e Máximas”.

         O livro, escrito, pela professora Lígia Fonseca Ferreira, me faz retornar àquela velha história, do menino vendido pelo pai. Aprendo que ele durou apenas 52 anos. Poucos, mas suficientes para se tornar um afamadíssimo advogado da árdua tribuna do júri popular; um  erudito defensor judiciário de mais de 500 negros por ele libertados em árduas batalhas forenses; um poeta invulgar; um humorista digno de ser chamado antecessor de Millôr Fernandes; um articulista extremamente culto; um dos líderes populares da causa republicana e um dos maiores oradores brasileiros nas manifestações em prol da Libertação dos Escravos. O menino baiano não desperdiçou o tempo, parecendo adivinhar que lhe seria curto.

         Dez anos mais se passam e a recente afirmação da consciência negra, varrendo para o lixo da História a má-consciência brasileira pela vergonha do prolongado regime escravocrata (em 1867, na Exposição Internacional de Paris o governo brasileiro, lembra Fábio Konder Comparato, deslavadamente dizia que ‘os escravos são tratados com humanidade e são em geral bem alimentados e alojados, seu trabalho é hoje moderado, ao entardecer e às noites eles repousam e praticam a religião em vários divertimentos’), faz com que, tendo a frente a incansável Lígia Fonseca Ferreira, em nova obra, se proclame e se reclame a excelência da personalidade histórica e intelectual de Luiz da Gama, pelas suas múltiplas vozes.

         Vozes que começam no verso fácil:

Se o muito que sinto

Não posso dizer,

Do pouco que sei

Não quero escrever.

Não quero que digam

Que fui atrevido;

E que na ciência

Sou intrometido.

Desculpa meu caro amigo,

Eu nada te posso dar;

Na terra que rege o branco,

Nos privam té de pensar!

Ao peso do cativeiro

Perdemos razão e tino,

Sofrendo barbaridades,

Em nome do Ser Divino!!

Vozes sem papas na língua na defesa dos negros trazidos clandestinamente quando o tráfico já era proibido, como se vê desta peça judiciária lavrada no mais fino estilo:

O mal, porém, não estava só na insuficiência das medidas legislativas, senão principalmente na máxima corrupção administrativa e judiciária que lavrava no país.

Ministros da coroa, conselheiros de estado, senadores, deputados, desembargadores, juízes de todas as categorias, autoridades policiais, militares, agentes, professores de institutos científicos eram associados, auxiliares, ou compradores de africanos livres.

Os carregamentos eram desembarcados publicamente, em pontos escolhidos das costas do Brasil, diante das fortalezas, à vista da polícia, sem recato nem mistério; eram os africanos sem embaraço alguns levados pelas estradas, vendidos nas povoações, nas fazendas, e batizados como escravos pelos reverendos, pelos escrupulosos párocos!

O exmº senador padre Feijó, prevalecendo-se de seu grande prestígio, sacerdote virtuoso e muito conceituado, levantou enérgica propaganda entre os seus colegas, nesta província.

Advertiu aos vigários para que não batizassem mais africanos livres como escravos, porque semelhante procedimento, sobre ser uma inqualificável imoralidade, era um crime.

Os vigários deram prova da emenda; mostraram-se virtuosos: de então em diante batizaram sem fazer assentamento de batismo! A religião, como o vestuário, amolda-se às formas do abdômen de quem o enverga; os ingênuos vigários também tinham seus escravos…”

Vozes que transformavam a provável amargura de uma vida infeliz na ironia, aquele derradeiro favor, como ensinava Anatole France, que a humanidade faz à injustiça, em páginas de um humor tão fino que certamente lembram o grande Millôr:

“Se tão horroroso é o Diabo pintado pelos padres, o que seria dos padres se os pintasse o Diabo?”

Cristo estabeleceu o comunismo para a salvação da sociedade; a sociedade salva proscreve o comunismo por amor de Cristo!”

Luiz Gama, em 1882, ao morrer, parou São Paulo, no cortejo fúnebre que o levou ao túmulo. Dele disse influente jornal da época:

“Foi grande como a honra, nobre como o heroísmo, sublime como a dedicação.”

O poeta Raimundo Correa, em 1883, vendo que aquelas imensas homenagens anunciavam a iminente derrocada do regime de escravos, profetizou em verso.

“Escravidão!

(Ele) Morreu por não poder matar-te!

Também não tarda muito que tu morras!

Como disse o próprio Gama, na epígrafe deste artigo, a morte é passageira a vida é permanente. E a vida flui quando dela e sobre os desafios que nos apresenta temos consciência. A primeira acepção etimológica da palavra consciência a identifica como o ato de dominar o conhecimento. Conhecimento que sobre Luiz Gama é indispensável, para os que comemoram o despertar da Consciência Negra, tenham ou não tenham o esotérico “lugar de fala”!