O reajuste das mensalidades dos planos individuais e familiares de saúde está dando o que falar, inclusive uma ação judicial em trâmite no Supremo Tribunal Federal.

         O valor, efetivamente alto, carrega a tradicional má vontade de vários setores da sociedade e da imprensa com os planos de saúde, que sejam o que façam, são sempre os vilões da história

         Entretanto, permita que se diga: as operadoras de planos de saúde não têm nenhuma responsabilidade e certamente serão vítimas dessa fixação.

         A responsabilidade pelo reajuste é exclusivamente da Agência Nacional de Saúde Suplementar. Não por agir certo agora, calculando adequadamente a elevação do custo da assistência na saúde. Mas por ter deixado que se represassem dois anos de acréscimo de despesas, uma vez que no ano passado, numa clara jogada populista, a mesma Agência deflacionou, em pouco mais de 8% as prestações dos mesmos planos, fazendo com que o valor da prestação diminuísse, no nosso entendimento de forma ilegal, pois retirou do patrimônio das operadoras valores com os quais ela já contava para cumprir compromissos contratados, compromissos, diga-se de passagem, obviamente não deflacionados.

Avisos não faltaram, quando a ANS, utilizando uma forma válida para tempos normais, calculou a sinistralidade (o custo efetivo dos atendimentos) num período de excepcional retração. O Instituto Brasileiro de Atuária demonstrou e redemonstrou que a retração das despesas não significaria sua inocorrência, mas, tão somente, seu represamento para quando a pandemia diminuísse.

E foi exatamente o que aconteceu. O ano de 2021 e os primeiros meses de 2022 registraram um excepcional acréscimo de atendimentos, seja em consultórios, seja em hospitais e laboratórios e isso impactou o percentual agora anunciado, que poderia ter sido bem menor, se a ANS, simplesmente, no ano anterior, houve apenas congelado as mensalidades dos planos.

O “benefício” generosamente concedido para os que precisavam e também para os que dele não necessitavam, reverteu num  elevado percentual   no ano subsequente, apto a ameaçar o equilíbrio da relação beneficiários e operadoras, agora em 2022. Já vimos no passado esse filme, só que os atores eram a ANEL e os consumidores de energia elétrica. O enredo era o mesmo. Vamos conceder um benefício, diminuindo o preço. Como os diretores desse filme não contaram              para os personagens que isto seria depois recuperado, a conclusão é que até hoje estamos pagando pelo descalabro demagógico.

         A mentira dos benefícios insustentáveis tem pernas curtíssimas, mas a demagogia que é responsável pela sua divulgação tem garras afiadas e cumpridas e elas acabam pegando os que se “beneficiaram” e que agora recebem, da Entidade outrora “boazinha”, o peso e o custo dos “benefícios” levianamente concedidos.

         As agências reguladoras foram criadas para evitar, ao máximo, a influência política, em algo que deve ser gerido de forma técnica. Toda vez que abandonam esse escopo, elas se desmoralizam e arriscam de levar a atividade, ou sistema de atividades que geram, ao caos.